Carlos Saraiva Pinto
Escrever foi um engano

índice dos primeiros versos


valerá a pena escrever a neve havia mais ar
beijarás a memória insubmissa as coisas complexas
farás do sono o abrigo entras no automóvel
atiras um livro quando chegou o verão
conheci de perto a solidão de pavese foram-se os anéis
o cão de goya enquanto uns exploram
chegou o outono a mulher que me deu mais prazer
sobrevoando o delta dificil lógica é uma coincidência
rodeado, apenas, deste silêncio pequenos itinerários
atravesso o bosque não dilato as pupilas, piranese
o olhar de Deus serão os homens de Deus
quando já cansado adormeço dois dias antes de morrer
a luz de virgílio abandonou-me sabes que eu





Escrever foi um engano é uma colectânea de poemas escritos entre Maio de 1994 e Dezembro de 1998.
Em 1999, foi obra finalista do Prémio Aula de Poesia, Universidade de Barcelona.







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valerá a pena escrever a neve



em carreiros de água,
como se a noite fosse o líquido
que obedece às películas da distância.

a impressão ágil da sombra
que produz o efeito das tílias
e o sossego longínquo
do nada iluminado.

sobre a boca encontrarás
o sinal do silêncio

a sua mãe terrestre
que esquece as ervas,
os socalcos leves
que chegam ao rio
mortos em verbo.

valerá a pena
a asa envolvente do jasmim
o anjo insubmisso do trigo,
ou o espelho sonoro
que guarda a metafísica dos caminhos.

comjo o céu e o carvalho milenar,
o leito é isento de mágoa,
e a porta dos peregrinos
busca a religião da luz.

ouve e repara a teimosia
do vinhático
em perfumar o ar.

é inútil o tacto da boca.

descerás
pelos campos subterrâneos da névoa
e crescerá em ti
o profano esquecimento de tudo.







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beijarás a memória insubmissa
o contributro das águias
colocando a fúria do inverno
nas cascatas.

a névoa rasteira
da gramática escolar.


e então verás aquela luz
que nos guiava
a olhar os mortos na igreja
tremendo a fronteira
entre o sono e o espanto,


nos lábios apertados
o milho da boroa e os avisos.


tudo é desilusão.
brancura hostil da alma
que nos liquida
o olhar terreno
cão andaluz do mar gotejante.


chamarás as gazelas
e elas não virão
educadas pelos soluços
de uma aposta incandescente.


tua escola é de erva e neve.


apenas a sombra de Deus
passeia agora nas paredes.


nenhuma religião exacta
abrirá as portas do sossego.


só um lírio
te liberta do mal.








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farás do sono o abrigo
dos anjos lentos,


a visão melancólica
dos rios obstinados.


ao menos uma vez


como a dimensão
dos pequenos passos
a caminho das mãos dissolvidas.


o rosto é meigo.


o lugar diante dos peixes
espalhará a neblina
tocada em mel a indiferença
que povoou de ausência
as libélulas interiores.


ó saliva inconsolável dos deuses.
no lado esquerdo do peito
o musgo dispersivo cobre o tempo
subtis pormenores
de gestos que escapam.


a minha memória parou.
o sofrimento vigia os mares
e na película dos amieiros
a noite cai árida e grave.


só o viajante da noite
contempla o mármore da face.
ouve a densa página das dunas,


os órfãos iluminados da chuva,
nas pegadas solitárias do outono
sobre os abismos do oeste.

descerás assim despido de luz
à verdura da terra

e a extensa morte
cobrirá de lama e sulcos
o teu reino.








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atiras um livro
à profundidade da água.
a incerteza desagua.


gostava de arrumar tudo.
os passos que dava
um pensamento heróico de absolutos
sentado naquele alpendre
coberto de orvalho
de onde via o mar.


reúnem-me os livros
para quebrar os pecíolos
de um quotidiano


mas a solidão de um irmão
não é igual à ambição de outros.

lembra a adolescência
quando colhíamos
açucenas dos naufrágios


e descobríamos quando o mar
retirava às dunas um navio ferrugento.


enquanto guiava pelas montanhas
ao lado dava-lhe substantivos.


trazeer até tão tarde
a luz cansa.
em breve chega o outono,
a dobra dos lençóis,
as crianças da escola,
a oração dos rostos.


sabes, agora,
que a vida
é um sonho desnecessário.

também se vive no campo.

os sentimentos de culpa
não nos devoram
as entranhas

nem vão aos funerais
os príncipes da igreja.







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conheci de perto a solidão de pavese
que esperava por uma voz.

a violência dos que não nos são fiéis
que parta para longe,

porque um deus contempla
a fronte limpa
daquele que recebe humilhação.

se as epístolas de domingo
perdoam o agiota,

numa água pura
lava os olhos
e deixa de ser órfão.

tu não tens o riso adolescente
que corre pelas mesas,
nem o exercício da impureza.

todos os apocalipses
são obra do verbo.

como um anjo condenarás
e apenas por isso ficas sozinho.









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o cão de goya
olha entre o tojo.

charcos samaritanos
aumentam a penumbra
sobre a meseta.


chegar à perfeição
é perceber o frio.


o mundo é caos de esponja.


o desgaste dos bidoeiros
enfrenta o outono.

dinamite explode
na partícula das ribeiras

num adjectivo bíblico
semelhante a velhos manifestos.

um mal-entendido
no horário dos comboios,

deixa-me no prado das esplanadas.


neste país anda-se a pé.
a geada que vier
será para os pés dos pedreiros.







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chegou o outono.
recolho a chuva em copos
espalhados no quintal.


a rotina dos encontros banaliza a oratória.
a mulher que é jovem
raras vezes se interroga
sobre o sublime.



dizem-me que até os velhos cinemas morreram.


alguns anarquistas
reunidos diante de um lago
tornam-se à luz do dia
refer~encia da imprensa decadente.


os anos de chumbo vão longe.
e nenhuma geração
já merece que toni negri
deixe a escola
para regressar às prisões romanas.
apenas os amigos.


guardo três livros de filosofia
na pasta
e meto-me ao caminho.









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sobrevoando o delta
desenho como peter lanyon
a topografia dos locais das praias
onde te disse adeus.


como o pintor aviador inglês,
uma linha errante segue
os teus passos nus
a entrarem na água.


depois, o bosque
fica suspenso pela bruma.


que música ouvirás
naquele verão infeliz
e que vestido passaste a ferro
para pôr no baile virginal.


hoje sinto a fragilidade
da luz nas oliveiras.


o meu reino de lucidez
é saibro do caminho.








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rodeado apenas deste silêncio
das bétulas,
ainda escrevo.



como se só ervas secas
deixasse nos sótãos,


esquecendo para sempre
os vários banquetes
que me foram oferecidos.










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atravesso o bosque
de castanheiros
pisando o manto das folhas
levadas pelo vento
no princípio do outono.




fecho a cancela de madeira do jardim
e lavo o rosto para entrar em casa.


esta noite
domrirei à luz das velas
se for preciso.








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o olhar de Deus
que há em nós
sabe o momenot
em que tudo deixou de ser
a harmonia dos dias de verão
que tivemos
na idade dos beijos perdidos.



passo, agora, longas noites
acordado
sossegando este corpo
dos contactos efémeros.


o homem solitário
não encontra aquela eternidade
que o outro e
ntretém
na mulher que ama.


tudo lhe escapou
como um milagre
das mãos vazias.












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quando já cansado adormeço
na gare dos comboios
de uma aldeia deserta
só há um lugar de paz
para onde os bosques confluem:
a fuga dos outros
e da sarna que se pega.



tolstoi teve os mesmos sentimentos.



quem entrou na catedral
perdeu o contacto com o mundo.


a lucidez e a loucura
estão à mesma distãncia
de um bilhete para longe.










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a luz de virgílio abandonou-me.


a noite humilde
tornou-se condenação
da activa linguagem.



toda a arquitectura do verbo
é, agora, ruínas,
indiferença perante a devastação
substantiva.



sem esperança nem medo,
no gume da navalha de caravaggio,
aguardo o clarão que reconcilia
o musgo nocturno da fêmea,
a pele ardilosa.


esta é a herança
dos quartos nómadas,

a salivação silenciosa.



a escassa luz é a velocidade dos outros.











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havia mais ar.
mais limites de árvores.
um cahrco era um espelho
que tinha sua esperança
e os musgos sabiam que a chuva
chegava cedo
quando o outono
escolhia os choupos das margens
para dar ao douro
o nome que um corpo sentia,




próximo da boca e do olhar
por quem são joão da cruz
abandonava a neve nas montanhas.


eu subia para a lareira
e tudo era um livro aberto
de navios infantis
no caudal dos tanques.



hoje, a luz é mais comnplexa
e dorme neste quarto asilar
a que pertende a desordem
dos papéis.
os meus projectos são poucos.
apenas desejo sentir os ombros
sobre as ruínas das famílias sepultadas.


teu ramo de rosas chegou tarde.


o sublime não arde nos quintais
onde decido desprnder-me
dos papéis insensatos e loucos.


a orfandade é o ciclone que uivará
nas vidraças
que escondem aquele recanto da casa
em que repousa minha cabeça na travesseira.


o tempo não pertence ao amor.
tarde o reconheço.


a palavra da vigília
alimenta vasos e sementeiras
que no pátio
dão alguma serenidade
àquilo que a poesia antecipa.
dispo o casaco vulgar
e a poeira torna-se líquida.
os remos são poucos
nas metáforas.


nem sei se o pão
que trouxe para as paisagens
bastará para a fome.










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as coisas complexas
são inimigas de Deus.




torna-me pois simples
como os bois e os cavalos
que no abandono da névoa
das montanhas são almas
que cumprem
dolorosas promessas a santuários
que estão para além do mundo.











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entras no automóvel
enquanto centena e meia de crianças
acotovelam-se no refeitório
em busca da sopa do meio-dia.



o meu amigo
que tornou possível este conforto
de camisolas suadas
entre correiras no parque






repousa, agora, em sepultura rasa.







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quando chegou o verão
não tinha comida para o meu cão.
levei-o para um quintal,
ele olhou-me
nos olhos pequenos.


conheço histórias célebres de cães
que atravessaram o rio
para seguirem o dono.





os operários são pagos à mão
neste estio sufocante.




não me consta que atravessem
os rios a nado.









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foram-se os anéis.
minha mãe que andava doente
atravessava a casa
com a chávena e a colher
a tilintarem
para me levar ao quarto
leite pela manhã.




esses anos foram duros,
muito duros.




um dia encontrei minha mãe
num café
diante de uma chávena
de leite e torradas.




foi a única vez
que a vi interessar-se por si
nesses anos.











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enquanto uns exploram
a mão-de-obra barata



eu volto à região
para pagar
pequenas dívidas.




o preço de um quarto,
pão, uma sopa.


a rádio entrevista os políticos
para a próxima campanha.




mas quem anda a pé
é que transforma
o que ama em luz.



entrarei no céu de pés desclaços.









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a mulher que me deu mais prazer
perdia-a um dia.



às vezes via a sua magreza
através da elegância das saias.




eu conhecia os relicários dos santos
os seus ossos distribuídos por
gavetas de prata
e sabia que um relógio
cria no cão pequeno
a ilusão do bater do coração da mãe.




o que eu beijava nessa mulher
era a sua respiração
o ar da sua santidade
que lhe impulsionava as ancas.


e ao seu lado eu dormia
como uma cão enrolado
ouvindo o bater do coração.








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difícil lógica é uma coincidência.
até Deus espalha as sementes
através do vento.



se sentes frio
repousas a cabeça na dobra das águas,
mas a rosa completa origina véus de noite
azuis patamares
onde perdes a estação das chuvas.




a consciência das coisas
não é próspera,
afunda-nos no lodo
onde o barbo
procura em vão o céu.



a linguagem do santo é dura.
em coisas vãs arquitecta encruzilhadas


deixando atrás de si o esquecimento.










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pequenos itinerários
tremem nos lírios das mãso.
a conversa aceita adjectivos
que a austeridade da noite não quer.



guadarrama coberto de nuvens.



como aquele espírito
que não abandona o corpo
a neve deu lugar a charcos
onde bois pastam sombras do céu.



constable tornou tudo negro.



a noite integral sucede à sintaxe.



elementos alheios
mostram que não se decide
dos seixos dos regatos.



haverá história,
manuscritos sobre a água,
sintomas de um coração maior.
só nos retratos de infância
se distingue a posição das coisas
e o destino.








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não dilato as pupilas, piranese.
se cruzo meus dias de inverno
para atar com cordéis
as tuas gravuras das prisões
é porque procuro reter em vão
a aflição da alma.
a correria da folhagem
que invade a bússola dos asilos,
a baínha da lâmina
que salpica de sangue o chão
no final do banho.




se escondo os meus papéis
é talvez porque a treva
nasça inútil nos ombros
e a lenta prisão ou crime
dos pés geógrafos
traga consigo
o desatar incrível
da botância das lágrimas.







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serão os homens de Deus
que te darão notícia
dos teus mortos.




saberás então que uma palmeira
equivale a três profetas





tu que buscas na mulher a carne
não te esqueças
que ainda tenho sentada
aos pés da cama
a sombra de minha mãe.











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dois dias antes de morrer
lavrou o campo
com o velho arado.




o meu pai via do escritório
passar os funerais
a caminho do cemitério da cidade.



havia nessas figuras austeras
algo de semelhante
a um outono de al,ma,
negro e cruel.



passados anos,
eu pensava como aquele pintor
diante dos caixões de pinho
levados aos ombros:



é assim que o meu país me quer.









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      a pasolini




sabes que eu
podia ter terminado
como o outro em óstia.



não porque tivesse um amante proletário violento
mas porque me opus a um lado e a outro
da conspurcação.



portanto leitor nunca te esqueças disso
nem da minha mente
tingida pelo sangue da adrenalina
do tempo furioso.




levantava-se um vento forte
em óstia semanas antes,
disse-me uma testemunha.
o mesmo vento áspero
que me faz hoje aquecer as mãos
com o bafo da minha boca
numa interminável
fila de refugiados entre a albânia e a grécia.




lembra-te pois disso leitor
e dá-me paz.



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em papel

Acabou de imprimir-se
em 30 de Abril de 2000
na gráfica Helvética (Gondomar)
numa tiragem de 400 exemplares




DEPÓSITO LEGAL; Nº 151457/2000








aqui
tudo ficou concluído aos 24 de Setembro de 2000


por Arsélio Martins, dactilógrafo de poetas.

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