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Escrever foi um engano índice
dos primeiros versos
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| < | valerá a pena escrever a neve em carreiros de água, como se a noite fosse o líquido que obedece às películas da distância. a impressão ágil da sombra que produz o efeito das tílias e o sossego longínquo do nada iluminado. sobre a boca encontrarás o sinal do silêncio a sua mãe terrestre que esquece as ervas, os socalcos leves que chegam ao rio mortos em verbo. valerá a pena a asa envolvente do jasmim o anjo insubmisso do trigo, ou o espelho sonoro que guarda a metafísica dos caminhos. comjo o céu e o carvalho milenar, o leito é isento de mágoa, e a porta dos peregrinos busca a religião da luz. ouve e repara a teimosia do vinhático em perfumar o ar. é inútil o tacto da boca. descerás pelos campos subterrâneos da névoa e crescerá em ti o profano esquecimento de tudo. |
| < | beijarás a memória insubmissa o contributro das águias colocando a fúria do inverno nas cascatas. a névoa rasteira da gramática escolar. e então verás aquela luz que nos guiava a olhar os mortos na igreja tremendo a fronteira entre o sono e o espanto, nos lábios apertados o milho da boroa e os avisos. tudo é desilusão. brancura hostil da alma que nos liquida o olhar terreno cão andaluz do mar gotejante. chamarás as gazelas e elas não virão educadas pelos soluços de uma aposta incandescente. tua escola é de erva e neve. apenas a sombra de Deus passeia agora nas paredes. nenhuma religião exacta abrirá as portas do sossego. só um lírio te liberta do mal. |
| < | farás do sono o abrigo dos anjos lentos, a visão melancólica dos rios obstinados. ao menos uma vez como a dimensão dos pequenos passos a caminho das mãos dissolvidas. o rosto é meigo. o lugar diante dos peixes espalhará a neblina tocada em mel a indiferença que povoou de ausência as libélulas interiores. ó saliva inconsolável dos deuses. no lado esquerdo do peito o musgo dispersivo cobre o tempo subtis pormenores de gestos que escapam. a minha memória parou. o sofrimento vigia os mares e na película dos amieiros a noite cai árida e grave. só o viajante da noite contempla o mármore da face. ouve a densa página das dunas, os órfãos iluminados da chuva, nas pegadas solitárias do outono sobre os abismos do oeste. descerás assim despido de luz à verdura da terra e a extensa morte cobrirá de lama e sulcos o teu reino. |
atiras um livro à profundidade da água. a incerteza desagua. gostava de arrumar tudo. os passos que dava um pensamento heróico de absolutos sentado naquele alpendre coberto de orvalho de onde via o mar. reúnem-me os livros para quebrar os pecíolos de um quotidiano mas a solidão de um irmão não é igual à ambição de outros. lembra a adolescência quando colhíamos açucenas dos naufrágios e descobríamos quando o mar retirava às dunas um navio ferrugento. enquanto guiava pelas montanhas ao lado dava-lhe substantivos. trazeer até tão tarde a luz cansa. em breve chega o outono, a dobra dos lençóis, as crianças da escola, a oração dos rostos. sabes, agora, que a vida é um sonho desnecessário. também se vive no campo. os sentimentos de culpa não nos devoram as entranhas nem vão aos funerais os príncipes da igreja. |
| < | conheci de perto a solidão de pavese que esperava por uma voz. a violência dos que não nos são fiéis que parta para longe, porque um deus contempla a fronte limpa daquele que recebe humilhação. se as epístolas de domingo perdoam o agiota, numa água pura lava os olhos e deixa de ser órfão. tu não tens o riso adolescente que corre pelas mesas, nem o exercício da impureza. todos os apocalipses são obra do verbo. como um anjo condenarás e apenas por isso ficas sozinho. |
| < | o cão de goya olha entre o tojo. charcos samaritanos aumentam a penumbra sobre a meseta. chegar à perfeição é perceber o frio. o mundo é caos de esponja. o desgaste dos bidoeiros enfrenta o outono. dinamite explode na partícula das ribeiras num adjectivo bíblico semelhante a velhos manifestos. um mal-entendido no horário dos comboios, deixa-me no prado das esplanadas. neste país anda-se a pé. a geada que vier será para os pés dos pedreiros. |
| < | chegou o outono. recolho a chuva em copos espalhados no quintal. a rotina dos encontros banaliza a oratória. a mulher que é jovem raras vezes se interroga sobre o sublime. dizem-me que até os velhos cinemas morreram. alguns anarquistas reunidos diante de um lago tornam-se à luz do dia refer~encia da imprensa decadente. os anos de chumbo vão longe. e nenhuma geração já merece que toni negri deixe a escola para regressar às prisões romanas. apenas os amigos. guardo três livros de filosofia na pasta e meto-me ao caminho. |
| < | sobrevoando o delta desenho como peter lanyon a topografia dos locais das praias onde te disse adeus. como o pintor aviador inglês, uma linha errante segue os teus passos nus a entrarem na água. depois, o bosque fica suspenso pela bruma. que música ouvirás naquele verão infeliz e que vestido passaste a ferro para pôr no baile virginal. hoje sinto a fragilidade da luz nas oliveiras. o meu reino de lucidez é saibro do caminho. |
| < | rodeado apenas deste silêncio das bétulas, ainda escrevo. como se só ervas secas deixasse nos sótãos, esquecendo para sempre os vários banquetes que me foram oferecidos. |
| < | atravesso o bosque de castanheiros pisando o manto das folhas levadas pelo vento no princípio do outono. fecho a cancela de madeira do jardim e lavo o rosto para entrar em casa. esta noite domrirei à luz das velas se for preciso. |
| < | o olhar de Deus que há em nós sabe o momenot em que tudo deixou de ser a harmonia dos dias de verão que tivemos na idade dos beijos perdidos. passo, agora, longas noites acordado sossegando este corpo dos contactos efémeros. o homem solitário não encontra aquela eternidade que o outro e ntretém na mulher que ama. tudo lhe escapou como um milagre das mãos vazias. |
| < | quando já cansado adormeço na gare dos comboios de uma aldeia deserta só há um lugar de paz para onde os bosques confluem: a fuga dos outros e da sarna que se pega. tolstoi teve os mesmos sentimentos. quem entrou na catedral perdeu o contacto com o mundo. a lucidez e a loucura estão à mesma distãncia de um bilhete para longe. |
| < | a luz de virgílio abandonou-me. a noite humilde tornou-se condenação da activa linguagem. toda a arquitectura do verbo é, agora, ruínas, indiferença perante a devastação substantiva. sem esperança nem medo, no gume da navalha de caravaggio, aguardo o clarão que reconcilia o musgo nocturno da fêmea, a pele ardilosa. esta é a herança dos quartos nómadas, a salivação silenciosa. a escassa luz é a velocidade dos outros. |
| < | havia mais ar. mais limites de árvores. um cahrco era um espelho que tinha sua esperança e os musgos sabiam que a chuva chegava cedo quando o outono escolhia os choupos das margens para dar ao douro o nome que um corpo sentia, próximo da boca e do olhar por quem são joão da cruz abandonava a neve nas montanhas. eu subia para a lareira e tudo era um livro aberto de navios infantis no caudal dos tanques. hoje, a luz é mais comnplexa e dorme neste quarto asilar a que pertende a desordem dos papéis. os meus projectos são poucos. apenas desejo sentir os ombros sobre as ruínas das famílias sepultadas. teu ramo de rosas chegou tarde. o sublime não arde nos quintais onde decido desprnder-me dos papéis insensatos e loucos. a orfandade é o ciclone que uivará nas vidraças que escondem aquele recanto da casa em que repousa minha cabeça na travesseira. o tempo não pertence ao amor. tarde o reconheço. a palavra da vigília alimenta vasos e sementeiras que no pátio dão alguma serenidade àquilo que a poesia antecipa. dispo o casaco vulgar e a poeira torna-se líquida. os remos são poucos nas metáforas. nem sei se o pão que trouxe para as paisagens bastará para a fome. |
| < | as coisas complexas são inimigas de Deus. torna-me pois simples como os bois e os cavalos que no abandono da névoa das montanhas são almas que cumprem dolorosas promessas a santuários que estão para além do mundo. |
| < | entras no automóvel |
| < | quando chegou o verão não tinha comida para o meu cão. levei-o para um quintal, ele olhou-me nos olhos pequenos. conheço histórias célebres de cães que atravessaram o rio para seguirem o dono. os operários são pagos à mão neste estio sufocante. não me consta que atravessem os rios a nado. |
| < | foram-se os
anéis. |
| < | enquanto uns exploram a mão-de-obra barata eu volto à região para pagar pequenas dívidas. o preço de um quarto, pão, uma sopa. a rádio entrevista os políticos para a próxima campanha. mas quem anda a pé é que transforma o que ama em luz. entrarei no céu de pés desclaços. |
| < | a mulher que me deu mais prazer perdia-a um dia. às vezes via a sua magreza através da elegância das saias. eu conhecia os relicários dos santos os seus ossos distribuídos por gavetas de prata e sabia que um relógio cria no cão pequeno a ilusão do bater do coração da mãe. o que eu beijava nessa mulher era a sua respiração o ar da sua santidade que lhe impulsionava as ancas. e ao seu lado eu dormia como uma cão enrolado ouvindo o bater do coração. |
| < | difícil lógica é uma coincidência. até Deus espalha as sementes através do vento. se sentes frio repousas a cabeça na dobra das águas, mas a rosa completa origina véus de noite azuis patamares onde perdes a estação das chuvas. a consciência das coisas não é próspera, afunda-nos no lodo onde o barbo procura em vão o céu. a linguagem do santo é dura. em coisas vãs arquitecta encruzilhadas deixando atrás de si o esquecimento. |
| < | pequenos itinerários tremem nos lírios das mãso. a conversa aceita adjectivos que a austeridade da noite não quer. guadarrama coberto de nuvens. como aquele espírito que não abandona o corpo a neve deu lugar a charcos onde bois pastam sombras do céu. constable tornou tudo negro. a noite integral sucede à sintaxe. elementos alheios mostram que não se decide dos seixos dos regatos. haverá história, manuscritos sobre a água, sintomas de um coração maior. só nos retratos de infância se distingue a posição das coisas e o destino. |
| < | não dilato as pupilas, piranese. se cruzo meus dias de inverno para atar com cordéis as tuas gravuras das prisões é porque procuro reter em vão a aflição da alma. a correria da folhagem que invade a bússola dos asilos, a baínha da lâmina que salpica de sangue o chão no final do banho. se escondo os meus papéis é talvez porque a treva nasça inútil nos ombros e a lenta prisão ou crime dos pés geógrafos traga consigo o desatar incrível da botância das lágrimas. |
| < | serão os homens de Deus que te darão notícia dos teus mortos. saberás então que uma palmeira equivale a três profetas tu que buscas na mulher a carne não te esqueças que ainda tenho sentada aos pés da cama a sombra de minha mãe. |
| < | dois dias antes de morrer lavrou o campo com o velho arado. o meu pai via do escritório passar os funerais a caminho do cemitério da cidade. havia nessas figuras austeras algo de semelhante a um outono de al,ma, negro e cruel. passados anos, eu pensava como aquele pintor diante dos caixões de pinho levados aos ombros: é assim que o meu país me quer. |
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a pasolini sabes que eu |
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Acabou de imprimir-se em 30 de Abril de 2000 na gráfica Helvética (Gondomar) numa tiragem de 400 exemplares DEPÓSITO LEGAL; Nº 151457/2000 aqui |
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