Almas do Purgatório
Poesias e Cânticos
1.
Morro porque não morro[1]
Vivo sem viver em mim.
E tão alta vida espero.
Que morro porque não morro.
Vivo já fora de mim,
Desde que morro d'Amor
Porque vivo no Senhor
Que me escolheu para Si;
Quando o coração Lhe dei
Com terno amor lhe gravei:
Que morro porque não morro.
Ai, que vida tão amarga
Por não gozar o Senhor!
Pois sendo doce o amor,
Não o é, a espera larga;
Tirai-me. ó Deus. este fardo
Tão pesado e tão amargo,
Que morro porque não morro.
Vida, que posso eu dar
A meu Deus que vive em mim.
Se não e perder-te, enfim.
Para melhor O gozar?
Morrendo O quero alcançar.
Pois nele está meu socorro
Que morro porque não morro
2.
Se me amas, não chores[2]
Se conhecesses o mistério imenso
Do Céu onde agora vivo,
Este horizonte sem fim,
Esta luz que tudo reveste e penetra,
Não chorarias, se me amas!
Estou já absorvido no encanto de Deus,
Na sua infindável beleza.
Permanece em mim o teu amor,
Uma enorme ternura
Que nem tu consegues imaginar.
Vivo numa alegria puríssima.
Nas angustias do tempo
Pensa nesta casa
Onde um dia
Estaremos reunidos para além da morte,
Matando a sede
Na fonte inesgotável da alegria
E do amor infinito.
Não chores,
Se verdadeiramente me amas!
3.
Acto de Amor do Santo Cura d'Ars
"Amo-Vos, ó meu Deus. e o meu único desejo é amar-Vos até
ao último suspiro da minha vida.
Amo-Vos,
ó meu Deus infinitamente amável, e prefiro morrer amando-Vos
do que viver um só instante sem Vos amar.
Amo-Vos, ó meu Deus, e só
temo o Inferno, porque nele nunca mais haverá consolação de Vos amar.
Ó meu Deus, se a minha língua não
pode dizer a todo o momento que Vos amo, quero que, ao menos, o meu coração
Vo-lo repita em cada uma das suas palpitações. Concedei-me a graça de sofrer amando-Vos, de Vos amar sofrendo e de expiar amando-Vos e sentindo que Vos amo. Quanto mais me aproximo
do fim, tanto mais Vos peço que aumenteis e aperfeiçoeis o meu amor. Assim
seja".
4.
Oferta ao Amor Misericordioso[3]
O meu Deus! Trindade Bem-aventurada!
Desejo amar-Vos e fazer-Vos amar,
Trabalhar pela glorificação da Santa Igreja,
Salvando as almas que estão na terra
E libertando as almas que estão no Purgatório!
A fim de viver num, acto de perfeito amor,
Ofereço-me como vítima de holocausto
Ao Vosso amor misericordioso,
Suplicando-Vos que me consumais sem cessar,
Deixando transbordar para a minha alma
As ondas de ternura infinita que estão encerradas em Vós!
Quero, ó meu Deus,
A cada palpitação do meu coração,
Renovar-Vos este oferecimento
Um numero infinito de vezes,
Até ao momento em que.
Desvanecidas as sombras,
Possa reafirmar-Vos o meu amor
Num face-a-face eterno!...
Virgem Maria, consoladora dos
aflitos
E Mãe de misericórdia,
Eu vos ofereço a minha vida,
As minhas orações e boas obras
Pelas almas do Purgatório.
Bibliografia:
P. José Roque ASM, Felizes os Misericordiosos – Nós e as Almas do Purgatório, Editorial Franciscana, Braga, 1998.
[1] S. Teresa
D'Ávila, Poesias,
Poesia “Morro porque não morro”, em Obras completas,
ed. Carmelo, 2ª
ed., Aveiro 1978, pgs. 1385-6.
[2] S. Agostinho.
in
Ecos do Coração 5, Ed. Paulistas,
Lisboa.
[3] Oferta feita por S. Teresinha na Festa da Santíssima Trindade, Domingo, 9 de Junho de 1895. Cf. S. Teresa do Menino Jesus, História de uma .Alma; Manuscritos Autobiográficos, Ed. Carmelo. Paco d'Arcos 1996, pgs. 335-338.